sábado, 8 de maio de 2010

Aula de democracia PeTista

Se não bastasse os desmandos do poder executivo sobre as votações da câmara dos deputados sobre o embargo às obras condenadas pelo Tribunal de Contas da União por irregularidades nas licitações, agora a democracia petista chega aos sindicatos.
Uma declaração do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco, Alberto dos Santos, se referindo a Lula, parece representar bem o ideal democrático que o PT tanto defende:
"Se dependesse de cada trabalhador aqui, o seu mandato seria IGUAL AO DE FIDEL CASTRO. Mas, como o senhor não quer, temos a OBRIGAÇÃO DE ELEGER QUEM O SENHOR INDICAR." (Fonte: Zero Hora, Sábado, 8 de Maio p.8)
Quero acreditar que, na menos pior das hipóteses, o indivíduo que falou isso esteja pensando, ao dizer que cada trabalhador deseja que o governo Lula seja como o de Fidel Castro, em governo vitalício. O que mais me incomoda nessa declaração é o fato de que muitas pessoas se sentem na obrigação de votar em quem Lula mandar, não sou eu quem digo isso, é o representante de um sindicato, uma pessoa que influencia outras pessoas e que se sujeita às ordens de alguém.
Mas esse é o efeito desejado pelo partido/governo (sim, pois é difícil distinguir o quê é o quê!) quando propagandeia o sucesso de suas políticas sociais, que as pessoas se sintam na obrigação de votar em seja quem for indicado por Lula sob pena de perder os benefícios que, parafraseando o excelentíssimo senhor presidente, "nunca antes na história deste país" foram conquistados.
O poder executivo, através de MPs e outros atos, vai contra os votos da maioria no congresso. Lula, segundo pessoas como Alberto dos Santos, tem o poder de obrigar indivíduos (ou seria uma massa uniformemente produzida ao longo dos últimos anos?) a votar em quem que que seja. São dois ótimos exemplos para uma aula sobre a democracia PeTista!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Insatisfação Geradora: "Cretinice" na Busca por Supostas Soluções

Não é de hoje que as pessoas não estão satisfeitas com os órgãos que supostamente existem para representá-las. Ou existe quem esteja plenamente satisfeito, por exemplo, com o Senado Federal? Creio que, excetuando os próprios senadores por motivos óbvios, não haja um indivíduo que ao ligar a televisão ou ler um jornal leia uma notícia sobre o Senado e diga: "Esses sim me representam fielmente!". Porém, uma coisa é a insatisfação e a tomada desta como ponto de partida para lutas políticas e sociais que visem a melhoria e o aperfeiçoamento destes órgãos, outra coisa totalmente diferente é a criação de poderes paralelos aos órgãos oficiais e historicamente existentes com o intuito de alcançar objetivos que durante muito tempo foram tentados mas nunca concretizados.
Ora, vejamos. A democracia para ser efetiva deve ter no mínimo três condições: a atribuição do direito de participar da tomada de decisões coletivas, seja direta ou indiretamente, a um elevado número de pessoas; a existência de regras e o respeito a estas de modo a que todos os que participam possam, mesmo que de modo bastante básico, calcular o resultado de suas ações; e, finalmente, é necessário que as pessoas participantes do processo democrático sejam postas diante de opções reais e efetivamente possuam liberdade para escolher entre uma delas. Esta é uma definição mínima proposta por Bobbio, definição esta com a qual eu concordo mesmo que haja vagueza em termos como "elevado número", mas isso não vem ao caso discutir agora.
Vejam bem caros leitores, por bem ou por mal, vivemos em um Estado democrático onde estas três condições são supridas, mesmo que muitas vezes de forma bastante deficiente. E talvez seja exatamente por vivermos em um Estado democrático que vemos surgir situações no mínimo constrangedoras como o surgimento de "novos órgãos" que pretensamente visam representar indivíduos. Parece que estes órgãos surgem pelo fato de suas tentativas de alcançar um determinado posto no órgão oficial fracassarem. Logo, a decisão de formar um novo "clubinho" para confrontar o já existente é a solução mais viável para alcançar este objetivo.
Pois bem, do que este texto está tratando afinal? Recentemente o PSTU criou a ANEL (Assembléia Nacional do Estudantes - Livre) como forma de combater a União Nacional dos Estudantes (UNE), por considerar que esta última seja mero instrumento do governo além de estar excessivamente burocratizada. Fazem parte da Anel grupos como "algumas correntes do PSOL, a Liga Estratégia Revolucionária, a Liga Bolchevique Internacionalista, o Coletivo Marxista, o Comitê Anarquista do Ceará, os DCEs da USP, UFMG e Puccamp, além de várias executivas de curso, como Educação Física e Letras", segundo a líder da "nova UNE", Camila Lisboa. Dentre os objetivos da ANEL estão o de ocupar reitorias buscando efetivar a democracia nas universidades com eleições diretas para reitor, combater o Pro-Uni e fazer oposição ao governo.
Particularmente desconheço qual a relação que há entre invasões de reitorias e democracia, tudo bem que a democracia defende que os cidadãos possuam liberdade de expressão e de escolha, porém usar a sua liberdade para ocupar prédios públicos e atrapalhar o funcionamento normal das atividades que ocorrem nestes parece ser uma tremenda falta de bom senso. Em primeiro lugar por impedir que vários estudantes dependentes do pleno funcionamento do órgão sejam impedidos (cadê o respeito a liberdade destes?) de efetuar atividades necessárias a suas vidas acadêmicas. Em segundo lugar, uma democracia pressupõe que suas regras sejam respeitadas e não entendo como uma ocupação poderia levar estas regras em consideração por diversos motivos que já escrevi neste blog e não vou adentrar aqui.
Combater o Pro-Uni e fazer oposição ao governo são coisas extremamente pessoais e não vou entrar no mérito da discussão. O que desejo chamar a atenção aqui é para o fato de esta "nova UNE" pretender ser representante dos estudantes tendo sido constituída em uma plenária com a participação de 2 mil estudantes, não tenho coragem de colocar em porcentagem quanto isso representa do total de estudantes brasileiros. Mesmo a UNE - a tradicional ou oficial, como queiram - acredito que não represente a maioria dos estudantes, eu particularmente não sou representado nem por uma nem por outra. Assim fica a pergunta: como uma instituição que tem como objetivo declarado lutar por uma radicalização da democracia nas universidades pode ser democraticamente legitimada por um número tão pequeno de pessoas? E ainda pior, tendo em sua base um caráter ideológico que historicamente não é democrático?
Quero deixar bem claro que não sou partidário da UNE, da ANEL ou de qualquer outra agremiação ou diretório estudantis, não sou adepto destes "trampolins políticos", somente fico aturdido com a "cretinice" de algumas pessoas em utilizar a bandeira da democracia com um objetivo tão mesquinho, criar um novo órgão porque o outro não permitiu que elas cheguem ao poder! Perversões a parte, ainda acredito que a insatisfação de algumas pessoas pode gerar coisas boas para a sociedade e não estas aberrações ideológicas.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ismos e Revolução: Uma Incompatibilidade

Não sei porque estive pensando sobre a liberdade ultimamente. Acredito estar pensando demasiado em questões como ética e moral, mas não é para tratar disso que estou aqui hoje. Estou aqui para falar de revolução! O espantoso é que é um tema que nunca me atraiu muito, mas pensando em liberdade, mais precisamente em condições de liberdade, involuntariamente acabei caindo no marxismo revolucionário, comunismo e esses ismos todos. Primeiramente tentarei esboçar o que entendo por revolução, para tanto utilizarei a obra O Conceito de Revolução de uma senhora chamada Hannah Arendt. Vejamos.


Hannah Arendt expõe que as revoluções são os únicos eventos políticos que nos confrontam com o problema do começo, por isso elas não podem ser confundidas com o conceito de mudança, conceito este que desde a antiguidade, mesmo com a violência que as mudanças acarretavam, nunca produziram algo inteiramente novo, não havia um rompimento com o que modernamente chamamos de história.

Segundo Arendt, uma revolução busca um novo começo, um rompimento violento de um ciclo histórico de mudanças contínuas que, como já citado, não originam nada novo, apenas mudam os estágios de um ciclo histórico.

Além da mudança, outro conceito que deve ser tratado quando falamos de revoluções, principalmente da revolução francesa, é o conceito de liberdade. Resumidamente, ser livre é ser admitido à luz do mundo público, poder participar das coisas públicas. Mas para que esta liberdade ocorra de fato é preciso que os indivíduos sejam libertos da opressão. A libertação é um pressuposto da liberdade que por si só não é capaz de gerá-la. A liberdade necessita também a formação ou redescoberta de uma forma de governo que a possibilite, assim a liberdade, ou o conceito de liberdade deve estar relacionado à experiência de um novo começo, da novidade.

Uma formulação sobre o conceito de revolução, ainda que incompleta já pode ser esboçada aqui. Segundo Arendt (p.28):

“(...); somente onde ocorrer mudança, no sentido de um novo princípio, onde a violência for utilizada para constituir uma forma de governo completamente diferente, para dar origem à formação de um novo corpo político, onde a libertação da opressão almeje, pelo menos, a constituição da liberdade, é que podemos falar de revolução.”

Há, pelo menos, mais um conceito que deve ser acrescentado para tornar esta formulação mais completa, este é o conceito de irresistibilidade. De forma bastante sucinta, este conceito deve ser compreendido como a violência, ou melhor, o fluxo violento que um processo revolucionário produz e que homem algum pode controlar ou deter. Alguns, como Proudhon, dizem que esse fluxo é eterno, que não houveram várias revoluções, mas que há apenas uma, perpétua.

Deste modo, com o acréscimo deste último conceito, acredito que a formulação arendtiana sobre o conceito de revolução possa ser resumida desta forma: uma revolução é um processo que, excetuando seu início, homem algum pode controlar ou deter, um processo onde ocorrem mudanças, buscando-se um novo princípio, onde a violência é utilizada para constituir uma nova forma de governo, originando assim um novo corpo político, onde a libertação da opressão almeje, pelo menos, a constituição da liberdade.

Analisando este conceito de forma breve e superficial, um marxista/comunista/socialista ingênuo tenderia a dizer que o processo que defende é um processo revolucionário. Porém deixam de analisar uma palavrinha que se encontra no fim deste esboço de conceituação. O processo de revolução é um processo onde a libertação da opressão deve almejar a constituição da liberdade! Como bem sabemos as experiências socialistas históricamente conhecidas não alcançaram sucesso nesse sentido e me parece no mínimo contraditório defender uma ditadura (seja ela do partido ou do proletariado), que surgiria de uma suposta libertação de uma situação também supostamente opressiva para cair em outra situação opressiva, desta vez a tal da ditadura!

A constituição da liberdade - que pode ser compreendida aqui tanto no sentido negativo (como ausência de coerção externa, mais precisamente dos outros indivíduos e do Estado) como no positivo (sem opressão o indivíduo se torna autônomo e pode agir segundo seus princípios levando em consideração o que é bom para a sociedade) - pressuposto para uma ação revolucionária não parece ser visado por nenhum dos ismos já citados. Se levarmos isso em consideração, a palavra revolução ou o termo revolucionário não pode realmente caracterizar os indivíduos que buscam mudanças seguindo tais ideologias. Troca-se então o sentido do termo pela romantização do mesmo, fato que, sabemos, ocorre principalmente no discurso político.

sábado, 17 de maio de 2008

Credo Assassino - Assassin's Creed

Pode parecer estranho utilizar o título de um jogo de computador - muito bom por sinal - para dar título a um comentário, mas espero que consiga desfazer esse estranhamento. Neste game, controlamos um personagem que é antepassado de um tal de Miles - como o jogo não tem legenda esse é o único nome que consegui gravar claramente. Mas o interessante mesmo é como chegamos a controlar tal personagem, vejamos nos próximos parágrafos.

No mesmo período temporal de Miles há um cientista que está fazendo experiências. Essas experiências levam este cientista a descobrir, por meio da carga genética de Miles, que este é herdeiro genético de um assassino e, portanto, possui a pré-disposição a agir como seu antepassado. O jogo mescla entre cenas controláveis deste antepassado e de Miles confinado em um laboratório junto com o cientista e uma assistente.

Estas lembranças sobre o antepassado de Miles são trazidas à tona por meio da carga genética de Miles, ou seja, quando, no game, estamos controlando o assassino estamos controlando o que está genéticamente inscrito naquele, isto é, aquilo que se encontra na carga genética de Miles.

Desconheço como é o andamento do jogo - reconheço que estou bastante curioso para saber como ele se desenvolve - mas penso que Miles será dominado por este "instinto assassino" e fugirá do laboratório, matando o cientista e, talvez romanticamente, poupando a assistente. Mas afinal, porque estou comentando sobre isso?

Ora, recentemente houve uma séria discussão sobre se deveríamos ou não fazer testes genéticos para saber se um indivíduo seria "naturalmente" violento. Psicólogos e psiquiatras, entre outras áreas, se mostraram radicalmente contra, afinal o indivíduo constrói e tem afetada, sua personalidade por meio de diversos fatores sociais e psicológicos que muito pouco são influenciados por fatores genéticos. Este é um argumento contra tais testes.

Mas se o fator genético fosse o dominante? Poderíamos julgar ou tentar mudar um indivíduo pelo que ele é "naturalmente"? De que adiantaria Miles passar sua vida em um laboratório se, no fim, acaba por ceder à seus ímpetos genéticos? Não deveríamos permitir tais testes para saber se não há mesmo esta possibilidade? Ficaríamos mais tranquilos, ou menos incomodados, se soubéssemos que somos genéticamente "pré-programados"?

Tanto com uma resposta positiva quanto negativa, nunca chegaríamos a um consenso. Novos testes surgiriam, novas hipóteses o refutariam. Pela polêmica que surgiu com uma possibilidade de explicar a "natureza" humana, parece que ainda temos medo demais para cogitar que ela possa existir...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Provocação Sobre a Moralidade

“O principal dos bens é a autoconservação. Com efeito, a natureza proveu a que todos desejem o próprio bem, mas para que possam ser capazes disso é necessário que desejem a vida, a saúde e a maior segurança possível dessas coisas para o futuro. De todos os males, porém, o primeiro é a morte, especialmente se acompanhada de sofrimento; mas, como os males da vida podem ser tantos, se não for previsto seu fim próximo, levarão a incluir a morte entre os bens” (HOBBES; De bom., XI, 6; in.: ABBAGNANO; Dicionário de Filosofia, p.384).

Agindo moralmente ou não, os homens tendem à autoconservação. Nem sempre uma ação moral garantirá este bem ao indivíduo que, assim como Hobbes, acredito agir, apesar do medo – e pelo medo – que este indivíduo sente, sempre buscando a proteção da sua vida. As pessoas à sua volta vêm sem segundo plano, quando o indivíduo já tem a segurança necessária para tomar conta de si próprio. Ou seja, o móvel do ser humano é a vontade de sobreviver.

Primeiramente, é preciso que o indivíduo deseje a vida, que tenha saúde e busque ter a maior segurança possível no presente para que possa garanti-la para o futuro. Muitas vezes essas coisas somente são alcançadas através de ações consideradas não-morais pela sociedade. Se analisarmos um indivíduo utilitarista, ou hiper-racional, notaremos que os indivíduos agem buscando sempre maximizar a satisfação pessoal, mesmo que seja de forma que fuja às regras morais da sociedade. Para um indivíduo racional, se ele possuir mais de uma opção de ação, e houver entre elas pelo menos uma que lhe parece ótima, ele seria irracional se não a escolhesse, mesmo que isso significasse ir contra as regras morais da sociedade.

Um exemplo disso é a eutanásia – no caso de uma doença ou acidente, onde uma pessoa fica sem poder se locomover, respirando por aparelhos e, muitas vezes, nem consegue reconhecer o mundo exterior –, vale a pena continuar “vivendo” sem poder aproveitar o mínimo que uma vida pode oferecer? Em um caso destes, a morte não poderia ser incluída como um bem para este indivíduo? Comumente a eutanásia é tratada como assassinato, mas não é menos desumano “assassinar” um indivíduo do que deixa-lo “vegetar” sobre uma cama?


Acredito que em várias situações, como a do exemplo acima citado, não devemos agir seguindo as regras morais do sociedade. Agimos moralmente quando isto nos propicia algum retorno, seja ele a vida, a saúde ou outro estado de bem estar.


A ação de acabar com o sofrimento de um indivíduo juntamente com sua vida, segundo meu ponto de vista, não teria justificação moral em nossa sociedade, pois sendo os juízos de valor parcialmente normativos e sendo pautados por uma ética fundamentadas por religiões cristãs onde a eutanásia é vista como uma forma de assassinato, esses juízos de valor não possibilitariam uma justificação moral da ação acima citada. A justificação se daria em um plano subjetivo, onde somente o indivíduo que efetua a ação a teria como justificada.


Sem sombra de dúvidas estaríamos fazendo um bem ao indivíduo, mas um mal à sociedade, pois a opinião de boa parte desta é contra a eutanásia, isso sem comentar os aspectos jurídico-normativos que vetam esse tipo de ação. Estaríamos fazendo um bem ao indivíduo e um mal a nós mesmos, pois teríamos que arcar com o ônus desta ação perante as leis – que agiriam contra nós –, assim como suportar as mais pesadas sanções sociais apesar de vivermos em uma sociedade de mercado onde, talvez contraditoriamente, defende-se tanto o autruísmo. Não consigo conceber um indivíduo que não haja pelos seus próprios interesses. Acredito que possam haver ações autruístas, porém com a intenção voltada também para o próprio indivíduo, ele pode vir a ajudar outros através de uma ação que efetua para ajudar a si mesmo.


Resumindo, a ação de acabar com a dor de um indivíduo que sofre de um mal sem cura é inviável basicamente por duas razões: 1) a eutanásia é um ato detestável para a maior parte da sociedade; e 2) a proibição por parte das leis - tratando o assunto a nível de Brasil. Por estes pontos acredito que esta ação seria socialmente não-moral, levando em consideração o fato de que muitas normas morais são fundamentadas em normas jurídicas e vice-versa.

Diferentemente de pensar que o bem, ou que a ação moral é própria do homem, penso que ela – a ação moral – seja, em muitos casos, um aparato instrumentaal que impede as ações humanas. A moral é como uma norma que os indivíduos tendem a acatar, principalmente quando pressionados pelas normas sociais, mas que, fora do alcance de sensores, nem sempre devem obedecer pois, os valores morais podem vir a servir muito mais como um entrave à evolução da sociedade do que uma das chaves para sua libertação.

Escolhi o tema da moralidade para tratar devido aos fatos que estão em voga na mídia. Perfeita moralidade política e a idéia do “bom cidadão”, ator e incorruptível, são assuntos que sempre estão rondadndo o imaginário popular, por este motivo acredito que este assunto deva ser tratado juntamente com trabalhos futuros, pois a moralidade – mesmo como um ente imaginário existente somente no pensamento das pessoas – perpassa as ações humanas.

Um Problema com a Filosofia no EM

A tradicional visão ‘academicista’ da disciplina de filosofia acarreta uma série de problemas para a expansão desta disciplina para o ensino médio. O principal deles, que será tratado neste breve trabalho, é o choque da cultura tradicional escolar com a cultura dos jovens e adolescentes[1].

A falta de preparação para o recebimento desta demanda de novos estudantes de filosofia faz com que a tradicional forma de dar aula se mostre ineficiente e incapaz de trazer os alunos para ‘dentro do mundo de Sofia’, pois, como expõe Fanfani (p.08) “Hoje é impossível separar o mundo da vida do mundo da escola. Os adolescentes trazem consigo sua linguagem e sua cultura. A escola perdeu o monopólio de inculcar significações e estas, a seu tempo, tendem à diversificação e à fragmentação”. Portanto, as abordagens tradicionais parecem ser didaticamente inadequadas para tratar deste novo panorama, este fato, aliado à carência de materiais didáticos, compromete o ensino de filosofia, principalmente no que tange sua especificidade, que é a de fomentar a atitude crítico-reflexiva dos sujeitos frente ao mundo em que vivem.

Em um primeiro momento, podemos delinear três possíveis soluções para o problema acima citado: primeiramente, criar instrumentos mais eficientes para que os professores possam fazer uma abordagem mais efetiva dos problemas filosóficos em sala de aula; segundo, constante atualização dos professores por meio de pesquisas próprias e publicações, para que ele crie alternativas para um trabalho mais eficiente com a disciplina em sala de aula; e, finalmente, a oferta de materiais didáticos que motivem os alunos a pensar criticamente suas próprias experiências, problematizando seu próprio dia-a-dia.

Colocando as coisas desta forma, parece que, para aproximarmos a cultura dos alunos com a tradição escolar, devemos cortar relações com o passado e recriar novas formas de ensinar filosofia – ou ensinar a filosofar. Porém, assim como Nietzsche, acredito que devemos conservar nas escolas a leitura dos clássicos. Por outro lado, devemos nos perguntar se os estudantes estão preparados para tão fatigante empreitada. Novamente recorrendo a Nietzsche, “... se os alunos apenas ouvirem, seu intelecto será involuntariamente preparado para um modo de ver científico. Não é possível que alguém saia dessa disciplina totalmente intocado pela abstração...”[2].

Porém, por mais bem escrito que seja um texto de filosofia, não carrego comigo a ilusão de que a maioria dos alunos de ensino médio, por mais sensíveis que sejam, sintam-se tocados e motivados por um texto filosófico. Filosofar e estudar filosofia são tarefas árduas, penosas e, como é altamente difundido, a escola não tem como característica um trabalho rigoroso no que toca as capacidades cognitivas e de pensamento dos alunos.

Por este motivo, torna-se necessária a ação e renovação do professor no sentido de criar instrumentos para motivar o aluno que não se interessa pela disciplina de filosofia por ela mesma. “Pois, da mesma forma que é pernicioso para os jovens a aversão à inquietude e o temor da novidade, também é pernicioso para o professor de filosofia aceitar essa tendência à não-problematização” (GALLO; KOHAN; p.45). Ou seja, o professor não pode perder sua capacidade reflexiva para sempre poder encontrar os melhores meios de ‘trazer o aluno para a aula’. Para tanto, o professor terá a tarefa de pesquisar meios de aproximar a filosofia da realidade desses alunos.

Deve-se deixar bem claro que este trabalho criativo por parte do professor de filosofia não tem por objetivo substituir a leitura de textos filosóficos por outro tipo de atividade. Visa-se tão somente uma abertura no texto por onde o aluno possa adentrá-lo e, possivelmente, passar a se interessar por ele. Para mim, assim como para Nietzsche, é inadmissível que um aluno tenha aulas de filosofia sem ter contato com s textos filosóficos clássicos. “Se cabe ao professor de filosofia fazer com que os estudantes tenham condições de pensar por si próprios, também cabe ao professor de filosofia pensar condições que possibilitam o filosofar” (IDEM; p.45). Para mim parece impossível filosofar sem ter um conhecimento mínimo do que já foi pensado pelos filósofos através de seus escritos.

Segundo GALLO e KOHEN (p.181), “Por um lado, considera-se que a pesquisa está dissociada do ensino, como se fosse possível ser um bom professor sem pesquisar a própria prática (...). Por outro lado, o professor acaba sendo alguém que é professor porque não pode ser outra coisa, não porque escolhe sê-lo”. A constante atualização do professor para a melhoria dos métodos pelos quais ele ministra suas aulas já o torna um pesquisador, não propriamente em filosofia, mas em como ensinar filosofia – o que para o ensino médio aparenta ser muito mais importante. O processo de criação de alternativas, além de ter como objetivo uma melhora na prática do ensinar filosofia filosofando, também é muito importante para que o professor não se acomode, pois “um professor que apenas reproduza, que apenas diga de novo aquilo que já foi dito não é, de fato, um professor de filosofia; o professor de filosofia é aquele que dialoga com os filósofos, com a história da filosofia e, claro, com os alunos, fazendo da aula de filosofia algo essencialmente produtivo”[3]. O professor de filosofia não deve ser considerado meramente um tutor, mas sim o responsável por um espaço onde as idéias devem ser difundidas e acolhidas.

O professor deve ter capacidade de criar seus próprios materiais e não simplesmente usar o livro didático como um facilitador, ele deve ser capaz de produzir sua própria didática. Esta, por sua vez, deve possuir uma certa flexibilidade, podendo ser encaixada em diversas realidades. Acredito que não é somente a didática que deve se adaptar aos alunos, pois se dependesse somente disso, os textos filosóficos deveriam ser banidos da sala de aula. Penso que uma didática ideal não é aquela que se adapta totalmente às necessidades dos alunos, mas sim aquela que permite que o aluno também se adapte, da forma menos penosa possível. Afinal, para haver um processo eficiente na construção de um pensar crítico, é necessário haver esforço de ambas as partes.

As aulas devem ser repensadas para que a cultura e os anseios dos jovens estudantes tenham espaço junto à rigidez do método filosófico neste novo quadro que se desenha com a introdução da filosofia no ensino médio. É preciso encontrar um meio-termo para que não haja nem a banalização da filosofia no sentido da pura opinião, nem que o excesso de rigidez metodológica exigido pelos textos torne as aulas desinteressantes e sem sentido para os alunos. Cabe ao professor alcançar tal virtude, o caminho é longo, escuro e repleto de espinhos, mas no fim do caminho frutífera árvore nos acena com seus belos frutos.


[1] Ver FANFANI, Emilio Tenti; Culturas Jovens e Cultura Escolar.

[2] NIETZSCHE, Friedrich; Humano Demasiado Humano, p.266.

[3] GALLO, Sílvio; KOHAN, Walter Omar. Filosofia No Ensino Médio, p.182.

Terrorismo Como Forma de Pressão Política

A invasão da reitoria da Universidade Federal de Santa Maria interrompeu qualquer chance de um diálogo realmente democrático. Sempre que um grupo invadir uma área pública, contrariando qualquer resquício de direito ou lei que ainda exista no movimento, podemos continuar falando de democracia? Ao meu ver estaríamos deixando de levar em consideração o estado de direito vigente em nossa sociedade. Claro que é direito de todos que a UFSM, assim como todo e qualquer órgão público, preste contas de suas ações e as exponha a sociedade, porém a distância entre reivindicar direitos e o desrespeito com a ordem pública é abissal. Essa prática, que denomino como terrorista, é inaceitável, viola todo e qualquer estado de direito de uma ordem democrática.

Gostaria de saber quais são os critérios que essas pessoas levam em consideração quando, de forma premeditada e organizada, agem de forma à desrespeitar a ordem pública causando desequilíbrio no diálogo, exigindo transparência e recuo por parte do poder público sem dar à este uma opção que seja, no mínimo, equivalente. Isso sem falar na questão da insegurança que um movimento destes causa, não conheço nenhum movimento radical que mantenha uma ordem eficaz que traga segurança às pessoas que nele estão inseridos sem o desejar – neste caso, a maioria dos estudantes.

Esta invasão gerou um mero conflito de opiniões onde os estudantes – deixando claro, a minoria destes – expuseram as suas e o poder público defendeu as dele. Tanto que foi só este último acenar com um recuo que a desocupação se deu imediatamente. A reitoria colabora cedendo à chantagem, à violência, como se nelas houvesse alguma legitimidade. E em relação à colaboração dos estudantes, qual seria ela? O sequestro termina com o pagamento da quantia pedida.

Não houve diálogo entre as partes como haveria em uma democracia, houve pressão, houve chantagem que, cá entre nós, não são as únicas armas de que dispomos. Possuímos o direito à palavra, temos voz, temos um Diretório Central Estudantil, somos privilegiados por estarmos freqüentando um ensino superior público... mas o que fazemos com isso? Tomamos das medidas mais baixas e mesquinhas para pressionar mudanças, para desequilibrar o jogo democrático desestabilizando um estado de direito mais ou menos eficiente.

Vale ressaltar que este movimento representa a minoria da universidade – incluindo estudantes, professores e funcionários – uma minoria militante (isso sem falar dos que nem sabiam o que estavam fazendo lá) que antes de sair clamando pela revolución deveria pensar onde e como poderia dar um melhor retorno à sociedade que a mantém, contribuindo para a sua formação como cidadão que conhece seus direitos – e através deles busque soluções – e cumpre com seus deveres, não a formação militante que busca, de forma antidemocrática, fins que na maioria das vezes nem ao menos são almejados pela maioria. Uma maioria silenciosa que não participou de tal movimento insinuou isso, insinua quando evita votar nas eleições do DCE, demonstra insatisfação e aversão à greves que, sabemos, não sejamos hipócritas, em nada melhorará a situação atual. Uma maioria que principalmente é contra a idéia de que: está insatisfeito com o poder público? Invada, haja pela violência, ameace, chantageie.

Mas como comumente vemos, é mais fácil vencer um debate que não acontece do que agir conforme as regras do jogo. Assim, a conformidade e o comodismo se disfarçam na turbulência, travestidos de ação, utilizando-se de um emotivismo solidário e coletivo para arrebatar uma pequena multidão. Não importam mais os direitos, as regras ou as leis, lobos em pele de cordeiro encontram na desordem um facilitador para o alcance de seus objetivos que, muitas vezes, têm seu caráter estudantil esvaziado.